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VISÃO 2020
RESUMO 2020 No. 25
AGOSTO 1995

A Visão 2020 para a Alimentação, Agricultura e o Meio Ambiente

É Necessário Mais Do Que A Alimentação Para Conseguir Uma Boa Nutrição Até O Ano 2020

Por: Lawrence Haddad, Saroj Bhattarai, Maarten Immink, Shubh Kumar e Alison Slack

Um centro de interesse primário da iniciativa da Visão 2020 do IFPRI é descobrir formas das pessoas alcançarem a segurança alimentar, ou seja, terem alimentos suficientes para terem uma vida saudável e produtiva. Mas o que é "suficiente"? Proporcionar o acesso ao alimento é a forma primária de proteger as pessoas (em particular as mulheres e crianças) contra a malnutrição, actualmente enfrentada por milhões de pessoas no mundo?

MELHORAR O ACESSO AO ALIMENTO NÃO É SUFICIENTE

Uma evidência recente indica que a melhoria da segurança alimentar familiar, medida pelas calorias adequadas, não se traduz necessariamente numa melhoria do estado nutricional das mulheres e crianças. Uma análise das tendências nacionais de consumo alimentar e do estado nutricional das populações dos países em desenvolvimento, desenvolvida nas últimas duas décadas, sugere que enquanto que ocorreu alguma melhoria na obtenção de maior segurança alimentar, esta melhoria não resultou em reduções comparáveis da malnutrição infantil. De acordo com os dados compilados pelo Comité Administrativo da Nações Unidas no Sub-Comité de Coordenação sobre Nutrição (ACC/SCN), o número de famílias afectadas pela insegurança alimentar decresceu na globalidade na ordem dos 200 milhões entre os períodos 1974-76 e 1988-90. Na mesma altura, todavia, o número de crianças malnutridas de facto aumentou na ordem dos 16 milhões. A probabilidade de ser malnutrido decresceu para as crianças nascidas hoje, comparadas com aquelas que nasceram nos anos 70 (excepto na África Sub-Sahariana). Não obstante, o número absoluto de crianças nascidas por ano ser crescente, e portanto, o número de crianças em risco de malnutrição continuar a subir.

Uma investigação anterior, desenvolvida a nível familiar pelo Instituto Internacional de Investigação de Políticas Alimentares (IFPRI) sugere que, com o aumento do rendimento e da disponibilidade dos alimentos, a fome pode diminuir, mas não necessariamente a malnutrição. Uma razão para uma malnutrição persistente pode se dever à complexa interacção entre o fornecimento de alimentos e as doenças, interacção que é influenciada pelo ambiente geral de saúde. Isto é frequentemente chamado de "efeito do tambor furado", em que as melhorias no acesso aos alimentos, que são importantes para um bom estado nutricional, podem ser anuladas pelo fraco acesso aos bens não alimentares, tais como a qualidade das instalações e serviços de saúde, educação, saneamento e água potável ou os mecanismos efectivos para a oferta destes serviços. Se isto é verdadeiro, deve ser dada maior ênfase à melhoria do acesso a estes bens não alimentares de forma a alcançar a Visão 2020.

Com base em investigações sobre nutrição, reconheceu-se há bastante tempo a sinergia entre o consumo alimentar e a doença. Se, quer a quantidade como a qualidade do alimento consumido são inadequados, o corpo humano fica desprovido dos nutrientes que o ajudam na protecção contra os organismos causadores das doenças, aos quais as crianças pequenas são particularmente vulneráveis.

Esta sinergia também funciona no sentido inverso. Uma maior exposição aos agentes patogénicos das doenças pode tornar as pessoas mais vulneráveis às deficiências nutricionais por exemplo, as doenças podem reduzir o apetite ou os parasitas podem roubar os nutrientes do corpo humano. Tem sido observado que as intervenções relacionadas com a água e o saneamento reduzem a severidade das doenças infantis, particularmente a diarreia, ascariasis e schistosomiasis. Em ambientes altamente contaminados, o saneamento e fornecimento de água potável complementam-se na produção de melhores resultados em termos de saúde. A importância económica deste sinergismo e a sua significância na elaboração de políticas ainda não foram completamente exploradas.

RELAÇÃO ENTRE DIETA ALIMENTAR E DOENÇA

Um estudo recente do IFPRI observa as funções da dieta alimentar e da doença na nutrição infantil e as escolhas que a família enfrenta para a alocação dos escassos recursos nos bens alimentares e não alimentares. Levantamentos familiares de oito países (Bangladés, Etiópia, Gana, Guatemala, Quénia, Paquistão, Filipinas e a Zâmbia) indicam que o impacto do aumento da segurança alimentar na nutrição infantil varia grandemente em função do lugar. Em alguns casos, não se encontrou qualquer melhoria. Em outros, a melhoria foi substancial. Finalmente, um factor determinante é a forma como operam os mercados de bens e serviços não alimentares, de forma que as famílias possam obtê-los com facilidade e desta forma alocar os seus recursos eficientemente.

figura 1Análises mais detalhadas da relação entre a dieta alimentar e doença, conduzidas nas Etiópia, Paquistão e nas Filipinas, examinam os efeitos da diarreia e insegurança alimentar na nutrição. O estudo confirma que apesar do acesso ao alimento ser o determinante primário da boa nutrição, a exposição repetida às doenças reduz a habilidade do indivíduo de absorção de nutrientes nos alimentos que são consumidos. Uma descoberta importante do estudo é que um aumento na diarreia infantil é sem dúvida mais prejudicial para a nutrição em famílias onde o fornecimento de alimentos é inadequado. Quando a incidência da doença é elevada e a segurança alimentar está a deteriorar, o efeito no estado nutricional é elevado. Claramente, quando é menor o acesso a ambos alimentos e insumos não alimentares como água potável, bom saneamento, ou serviços de saúde, o efeito sinérgico da dieta e doença são intensificados (figura 1).

Nas Filipinas, as crianças cujo consumo de calorias era baixo, eram mais susceptíveis de estar abaixo do peso se a incidência de diarreia fosse alta em vez de baixa. Onde o consumo de calorias era elevado, no entanto, as crianças com diarreia frequente não eram mais susceptíveis de estar abaixo do peso que as crianças que raramente tinham diarreia. Mas na Etiópia e Paquistão, as diferenças eram mais pronunciadas. As crianças que sofriam de surtos frequentes de diarreia eram mais susceptíveis de estar abaixo do peso, principalmente se a dieta fosse inadequada.

IMPLICAÇÕES EM TERMOS DE POLÍTICAS E PROGRAMAS

Os resultados sugerem que, para melhorar a segurança alimentar e nutricional, os decisores políticos devem ter conhecimento dos trade- offs no acesso familiar aos insumos alimentares e não alimentares e devem minimizá-los. Os programas alimentares tem maior probabilidade de ter um grande impacto apenas quando o investimento público na redução de doenças é considerado de alta prioridade. Programas efectivos de segurança nutricional requerem abordagens multisectoriais e devem sempre considerar as limitantes sociais, económicas, culturais e ecológicas a nível local. As políticas e programas devem ter uma preocupação particular com os grupos que são frequentemente excluídos dos programas de investimento social. No planeamento destes programas de investimento social, os efeitos sinérgicos das múltiplas intervenções alimentares e não alimentares dos grupos populacionais vulneráveis deve ser explorados.

Deve-se assegurar a sustentabilidade a longo prazo dos investimentos sociais (na infra-estrutura de saúde e saneamento e fornecimento de água potável) através do investimento na capacidade local e comunitária para a auto-resolução e auto-ajuda. A descentralização institucional contribui para a formação de parcerias abrangentes entre o sector público, as organizações não governamentais e os grupos indígenas.

ASPECTOS QUE EXIGEM ATENÇÃO PRIORITÁRIA

As implicações para abordagens e soluções práticas foram aprofundadas num seminário realizado no IFPRI em Abril de 1995. Os participantes do seminário identificaram as questões chave que precisavam ser consideradas:

  • Porque é que os anteriores programas multisectoriais geralmente falharam, e que lições podem ser tiradas daqueles que foram bem sucedidos?

  • Porque é que os mercados rurais para os serviços básicos tem sido desenvolvidos lentamente, e quais são as limitantes? O sector privado em expansão melhora o acesso aos insumos nutricionais não alimentares para os pobres?

  • Como podem os grupos populacionais marginalizados, tais como as mulheres ter um acesso melhorado aos insumos alimentares e não alimentares? Como pode ser realizada uma redução dos trade-offs devida à limitação de recursos?
Para responder a estas questões deve ser expandido o trabalho conceptual, analítico e político sobre as várias facetas das interacções alimentares e não alimentares.

A Visão 2020 para a Alimentação, Agricultura, e o Meio Ambiente é uma iniciativa para o desenvolvimento de uma visão compartilhada e consenso sobre a acção sobre a maneira de se atingir as futuras necessidades mundiais de alimentos enquanto, ao mesmo tempo, se reduz a pobreza e se protege o meio ambiente.

Através da iniciativa Visão 2020, o IFPRI junta escolas divergentes de pensamento sobres esses assuntos, gerindo pesquisas e identificando as recomendações. Os Resumos de 2020 apresentam informação sobre vários aspectos desses assuntos.

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