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VISÃO 2020
RESUMO 2020 No. 61
MAIO DE 1999

A Visão 2020 para a Alimentação, Agricultura e o Meio Ambiente

A PECUÁRIA ATÉ AO ANO 2020: A PRÓXIMA REVOLUÇÃO ALIMENTAR

Christopher Delgado, Mark Rosegrant, Henning Steinfeld, Simeon Ehui e Claude Courbois

Actualmente está a ocorrer uma revolução agrícola, a nível mundial, com profundas implicações para a saúde, os meios de vida (livelihoods) e o meio ambiente em que vivem os seres humanos. O crescimento da população, a urbanização e o aumento do rendimento nacional nos países em via de desenvolvimento estão a provocar um aumento notável na procura de alimentos de origem animal. As mudanças introduzidas nas dietas alimentares de biliões de pessoas poderão aumentar significativamente o bem estar das populações pobres nas áreas rurais. Os governos e a indústria devem preparar-se para esta revolução contínua, com políticas de longo prazo e investimentos, cujos objectivos sejam: satisfazer as necessidades do público consumidor, melhorar as condições de nutrição, oferecer mais oportunidades de obter rendimentos monetários aos mais necessitados, e minorar os problemas ambientais e de saúde pública.

TRANSFORMAÇÃO DO CONSUMO E DA PRODUÇÃO
Ao contrário da "Revolução Verde", que era provocada pela oferta, a "Revolução Pecuária" é provocada pela procura. Desde o início dos anos 70 até meados dos anos 90, o volume de carne consumida nos países em desenvolvimento aumentou quase para o triplo que nos países desenvolvidos. O consumo nos países em via de desenvolvimento aumentou a uma taxa ainda mais rápida na segunda metade desse período, com a Ásia à frente da lista (ver a tabela).

Tendo começado numa pequena base, os países em desenvolvimento passaram, no entanto, a acompanhar os níveis de consumo dos países desenvolvidos, mas ainda têm um longo caminho a percorrer, principalmente devido aos níveis de rendimentos mais baixos das suas populações. Os habitantes dos países desenvolvidos obtêm uma média de 27% das suas calorias e 56% das proteínas que ingerem de produtos animais. As médias dos países em via de desenvolvimento são de 11 e 26%, respectivamente. A diferença entre os níveis de consumo é uma indicação das profundas mudanças que se prevêem em relação à futura produção mundial de alimentos, com a evolução continua da "Revolução Pecuária".

photo: Will Reidhead, IFPRI A produção de produtos alimentares de origem animal aumentou rapidamente nos lugares onde o consumo também aumentou. O total da produção de carne nos países em via de desenvolvimento aumentou 5,4% por ano, entre o início dos anos 80 e meados dos anos 90, o que representa cinco vezes mais a taxa dos países desenvolvidos. A produção per capita manteve-se ao mesmo ritmo do crescimento da população, nas regiões de países em via de desenvolvimento, com excepção da África Sub-saariana (quanto à carne) e da Ásia Ocidental/África do Norte (quanto ao leite).

A questão sobre se estas tendências de consumo continuarão no futuro está a ser explorada pelo IFPRI, com o seu modelo alimentar mundial, que inclui dados sobre 37 países e grupos de países e 18 produtos. Conhecido como IMPACT (International Model for Policy Analysis of Agricultural Consumption), o cenário de linha de base do modelo prevê um aumento do consumo da carne e do leite nos países em via de desenvolvimento de 2,8 e 3,3% por ano entre o início dos anos 90 e o ano 2020. As taxas de crescimento correspondentes dos países desenvolvidos são de 0,6 e 0,2% por ano. Até 2020, os países em via de desenvolvimento consumirão mais 100 milhões de toneladas métricas de carne e mais 223 milhões de toneladas métricas de leite do que em 1993, fazendo parecer mínimo o aumento de 18 milhões de toneladas métricas da carne e do leite, conjuntamente, relativo aos países desenvolvidos.

Consumo de carne real e projectado, por região
Região Aumento anual do consumo total de carne Consumo total de carne
  1982-94 1993-2020 1983 1993 2020
  (percentagem) (toneladas métricas em milhões)
China 8,6 3,0 16 38 85
Outros países do Leste da Ásia 5,8 2,4 1 3 8
Índia 3,6 2,9 3 4 8
Outros países do Sul da Ásia 4,8 3,2 1 2 5
Sudeste da Ásia 5,6 3.0 4 7 16
América Latina 3,3 2,3 15 21 39
Ásia Ocidental/África do Norte 2,4 2,8 5 6 15
África Sub-saariana 2,2 3,5 4 5 12
Países em via de desenvolvimento 5,4 2,8 50 88 188
Países desenvolvidos 1,0 0,6 88 97 115
Mundo 2,9 1,8 139 184 303
Fontes: Dados anuais fornecidos pela FAO. Os números do consumo total de carne em 1983 e em 1993 representam médias móveis de três anos. As previsões para 2020 são fornecidas pelo modelo mundial IMPACT do IFPRI.

Observações: A carne compreende: carne de vaca, porco, ovelha, cabra e aves domésticas. A estimativa da produção de carne na China, para o início dos anos 90, suspeitosamente exagerada, prevê um consumo real de 30 milhões de toneladas métricas (uma taxa de aumento anual de 6,3% desde 1983). Se a previsão for correcta, o nível de consumo mundial de carne relativo a 1993, nesta tabela, está sobre-estimado em cerca de 4,3% (no máximo), e ainda menos do que para o ano 2020, visto o modelo IMPACT incorporar pressupostos pessimistas baseada na perspectiva conservadora para 1993.

As taxas de aumento da produção de carne até ao ano 2020, portanto, acompanham as do consumo de carne na maioria das regiões. A produção de carne aumentará quatro vezes mais rapidamente nos países em via de desenvolvimento do que nos países desenvolvidos. Até ao ano 2020, os países em via de desenvolvimento produzirão 60% da carne mundial e 52% do leite mundial. A China encabeçará a produção de carne e a Índia a produção de leite.

IMPLICAÇÕES PARA OS PREÇOS MUNDIAIS DOS PRODUTOS ALIMENTARES
O aumento da produção de gado vai levar a um aumento do consumo anual de forragens de cereais de 292 milhões de toneladas métricas, entre 1993 e 2020. Embora alguns sectores manifestem a preocupação de que este grande significativo aumento cause a subida dos preços dos cereais de maneira substancial com o passar do tempo, os preços da carne de gado e das forragens ajustadas à inflação, na realidade, deverão baixar até ao ano 2020, se bem que não tão aceleradamente como aconteceu nos últimos 20 anos. Num cenário de "pior caso" que é, segundo um consenso, muito mais pessimista, as necessidades de forragens de cereais por unidade de carne deverão correspondem a uma subida de 1% por ano até ao ano 2020, por causa de aumento do nível de industrialização da produção e à falta de uma correspondente melhoria na eficiência das rações para gado. Mesmo assim, o modelo IMPACT mostra que os preços reais do milho no ano 2020 subirão, no máximo, até um quinto acima dos níveis presentes e permanecerão substancialmente abaixo dos níveis registados no início dos anos 80.

Embora a a produtividade do sector pecuário registe aumentos muito inferiores aos das tendências históricas, no ano 2020 haverá carne, leite e forragens suficientes sem uma subida dos preços acima dos níveis de 1992-94. A questão principal, então, não será a da existência de stocks suficientes, mas sim a dos efeitos directos do aumento em escalada da produção e do consumo de carne de gado entre as populações pobres, o meio ambiente e a saúde humana.

A PECUÁRIA E AS POPULAÇÕES POBRES
Em vez do contribuir para o desgaste das reservas alimentares disponíveis para a população pobre, pelo contrário, o aumento do consumo de produtos de origem animal, veio ajudar a aumentar o poder de compra dessa mesma população. Existem indícios suficientes que mostram que os habitantes pobres ou sem terras das áreas rurais, especialmente as mulheres, obtêm uma maior proporção dos seus rendimentos monetários da criação de gado do que os de outros habitantes rurais mais prósperos (constituindo a principal excepção as regiões onde se podem encontrar grandes ranchos, como nalguns lugares da América Latina). Além disso, a criação de gado proporciona aos lavradores pobres os adubos e a tracção bovina, e dá-lhes a possibilidade de explorar áreas comuns de pastagem, de acumular garantia subsidiària e de fazer poupanças, e de diversificar as suas fontes de rendimento. A Revolução Pecuária pode tornar-se um de meios principais para aliviar a pobreza nos próximos 20 anos. Mas, uma acelerada industrialização da produção apoiada pelos subsídios actuais comuns (para financiamento de crédito em grande escala ou para utilização de terras) pode prejudicar este importante mecanismo para gerir os rendimentos e os bens para as camadas pobres. Os responsáveis pela elaboração de políticas têm que assegurar que as distorções das políticas não afastem as populações pobres de um dos mercados em expansão nos quais eles ocupam, actualmente, uma posição competitiva.

Os produtos pecuários também beneficiam as populações pobres ao melhorar as suas deficiências de proteínas e de micronutrientes, um fenómeno prevalecente nos países em via de desenvolvimento. O aumento do consumo de carne e de leite de um indivíduo pobre, mesmo em quantidades pequenas, fornece-lhe a mesma quantidade de elementos nutritivos, proteínas e calorias que uma grande refeição diversificada de vegetais e cereais.

SUSTENTABILIDADE DO MEIO AMBIENTE E SAÚDE PÚBLICA
Com os baixos níveis do consumo de calorias pelas populações pobres, a falta de acesso aos produtos de origem animal --não o consumo excessivo-- deveriam ser objecto da preocupação dos responsáveis pelas políticas. Os maiores riscos de saúde derivados de produtos pecuários nos países em via de desenvolvimento consistem nas doenças transmissíveis por animais, tais como a gripe aviária e a salmonela, a contaminação microbiana resultante da manipulação pouco higiénica dos alimentos e a acumulação de pesticidas e antibióticos na rede alimentar resultantes das práticas de produção.

Os efeitos da "Revolução Pecuária" sobre o meio ambiente também podem ser preocupantes. A pecuária, normalmente, contribui para a sustentabilidade do meio ambiente nos sistemas agro-pecuários que conseguem um equilíbrio entre a intensificação do cultivo de plantas e a intensificação da criação de gado. Nestes sistemas, a criação de gado proporciona o estrume e a força de tracção dos animais, o que mantêm uma produção intensiva das culturas. Mas as concentrações maiores de animais nas áreas peri-urbanas que servem para suprir as necessidades crescentes de carne e de leite das áreas urbanas, têm causado a degradação das áreas de pasto e problemas de poluição. Além disso, as políticas implementadas têm incentivado a pratica de abarrotar as áreas de pasto e agravado o problema do desflorestamento através de proteger os produtores e os consumidores de produtos agrícolas contra os verdadeiros custos da degradação do meio ambiente. Em sistemas de produção intensiva, as grandes quantidades de gases de estufa e os excessos de nutrientes produzidos pelo gado ameaçam o meio ambiente. A poluição assim causada deveria ser considerada como um custo financeiro para o produtor e para o consumidor, mas raramente isso acontece.

CONCLUSÕES PARA A FORMULAÇÃO DAS POLÍTICAS
Algumas pessoas querem deter a "Revolução Pecuária". Mas a contínua transformação nos hábitos nutricionais nos países em via de desenvolvimento, impulsionada pelo aumento dos rendimentos da população e pela expansão das áreas urbanas, não permite grande espaço para que as políticas possam alterar o aumento generalizado da procura de produtos de origem animal. As políticas podem, contudo, ajudar a tornar a revolução tão benéfica quanto possível para o bem estar das populações pobres. Para atingir esse fim, os responsáveis pelas políticas terão que se debruçar sobre quatro questões fundamentais:

Os pequenos produtores agrícolas têm que estar verticalmente ligados aos industriais de transformação e aos comercializadores de produtos perecíveis. As camadas pobres têm dificuldade em obter acesso a meios produtivos tais como facilidades de crédito, e instalações de frio e a informação (por exemplo sobre a prevenção de infecções microbianas). A integração dos pequenos produtores de gado e das grandes empresas industriais de processamento combinaria os benefícios da redução da pobreza e dos efeitos ambientais da produção de gado em pequena escala com os efeitos benéficos sobre a saúde e as vantagens das economias de escala que podem ser obtidos com o processamento industrial em grande escala.

A elaboração de políticas pode facilitar a integração dos pequenos agricultores na produção comercial ao corrigir as distorções que promovem as economias de escalas artificiais, tais como os subsídios ao crédito em grande escala e a concessão de direitos de pastagem. O êxito deste esforço necessitará dum empenho político, tanto da parte do sector público como do sector privado, e a colaboração entre esses sectores para a criação de tecnologias e o uso das práticas necessárias para reduzir os riscos de contracção de doenças pelos animais que são inevitáveis quando os animais de grandes números de pequenos produtores são misturados numa única instalação de alimentação intensiva ou transformação do produto. Deve ser dada muito mais atenção à produtividade do gado e às questões sanitárias, nomeadamente nas fases de transformação e de comercialização dos produtos.

É necessário criar mecanismos para regulamentar o tratamento dos problemas sanitários e ambientais relacionados com a produção pecuária. As tecnologias que visam combater os riscos de saúde pública e ambientais não funcionarão a menos que existam mecanismos regulatórios a fazer cumprir aos regulamentos. Normalmente esses mecanismos emergirão quando as exigências políticas para a adopção de melhores leis forem feitas mais fortes.

Acima de tudo, os pequenos produtores necessitam de ser incluídos no processo de resposta a esta oportunidade dinâmica. A falta de actuação política não irá deter a Revolução Pecuária, mas fará com que esta assuma uma forma que menos favorável para o crescimento económico, o alívio da pobreza e a sustentabilidade dos países em via de desenvolvimento.

Christopher Delgado e Mark Rosegrant são investigadores seniores e Claude Courbois é um analista de investigação do Instituto Internacional de Investigação em Políticas Alimentares (International Food Policy Research Institute). Henning Steinfeld é uma funcionária senior responsável da área de planeamento do desenvolvimento do sector pecuário da Organização da Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). Simeon Ehui é coordenador do projecto de Análise das Políticas do Sector Pecuário, no Instituto Internacional de Investigação Pecuária.

Este resumo é baseado no Documento de Discussão sobre a Visão para o Ano 2020, No. 28, do mesmo título.

A Visão 2020 para a Alimentação, Agricultura, e o Meio Ambiente é uma iniciativa para o desenvolvimento de uma visão compartilhada e consenso sobre a acção sobre a maneira de se atingir as futuras necessidades mundiais de alimentos enquanto, ao mesmo tempo, se reduz a pobreza e se protege o meio ambiente.

Através da iniciativa Visão 2020, o IFPRI junta escolas divergentes de pensamento sobres esses assuntos, gerindo pesquisas e identificando as recomendações. Os Resumos de 2020 apresentam informação sobre vários aspectos desses assuntos.

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